Grande Lar,

Um Sonho Acima Das Cinzas

02:10:00 Inominável Ser 1 Comments


Perdi a voz na noite serena,

Em pretos e brancos momentos

De uma vida mui pequena.


Pedi à Voz Serena Da Noite

Que se fizesse uma serenata

Em nome de uma vida mui grande.


Qual vida mui grande

Seria essa?


Qual vida mui grande

Daria para mui amar?


Qual vida mui grande

Veria o meu mui amar?


Em pretos e brancos

De grandes momentos

A vida mui grande aqui está.


A vida mui grande é a da

Menina dos penetrantes olhos

Com a qual sonho antes do anoitecer.


Ao entardecer dos dias invernais

Sonho com ela acima das cinzas

Dos meus ais.


A menina penetra em meus ais,

Transformando-os nas doces fibras

Do Pão Da Suavidade.


Suavemente,

Ela penetra em mim mais,

Ela regenera meu corpo a mais.


Corpo não posso dela tocar,

Ela é sonho em pretos e brancos

Momentos de inominável delirar.


Não posso tocar,

Nunca irei tocar,

Apenas sonhar com ela vou ficar.


Para que tocar?


Para que tocar?


Para que tocar?


Meus sonhos não são vulgares,

Não sou um poeta vulgar,

Ela não é vulgar.


Menina dos penetrantes olhos,

Vagues comigo no sonhar,

Deixemos outros com o vulgar.


Vamos varrer as cinzas

Com os nossos pés descalços,

Varrer e sonhar.


E nos aproximar

Do Que Nunca Se Torna Cinza,

Da Imortalidade Do Grande Mar.


E que beijemos lá

A Face Do Grande Lar,

O Verdadeiro Romance De Todo Lar.


E que nos beijemos bem longe

Do humano olhar vulgar,

Nos Sonhos Além Do Sonhar.


E que nos beijemos antes

Do meu acordar maresio diário

Nas cinzas do meu lar...


Inominável Ser

SONHADOR ACIMA

DAS CINZAS




1 Românticos Aqui Se Revelaram:

Zana disse...

Olá, Romances....depois do Jardim...


Poesia

Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.

Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.
No interior das coisas canto nua.

Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não pelo meu ser que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos atos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.


Sophia de Mello Breyner Andresen


Até.